Saltar para o conteúdo

Uma campanha cultural não começa com o cartaz

Sobre desejo, promessa e a decisão que antecede qualquer peça de comunicação.

Quando uma campanha cultural começa pelo cartaz, começa tarde. O cartaz é a consequência visível de uma decisão que já foi tomada, muitas vezes sem se perceber que estava a ser tomada: a decisão sobre por que razão alguém deve querer estar presente.

Essa pergunta parece simples e é quase sempre adiada. Adiamo-la porque há datas, porque há ficha artística, porque há um plano de meios à espera. Mas o público não compra um plano de meios. Compra uma expectativa de experiência.

Desejo antes de oferta

A maior parte da comunicação cultural descreve a oferta: quem, onde, quando, quanto custa. Muito pouca constrói desejo. A diferença não é estilística, é estratégica. Descrever a oferta responde a quem já decidiu ir. Construir desejo é falar com quem ainda não sabe que quer ir.

O desejo forma-se de três matérias: reconhecimento, promessa e oportunidade. Reconhecimento é o que já existe na cabeça das pessoas. Promessa é o que lhes dizemos que vai acontecer. Oportunidade é a razão para ser agora e não um dia destes.

A narrativa é uma decisão, não um texto

Uma narrativa de campanha não é o texto do comunicado. É a escolha do ângulo que torna o espetáculo compreensível e desejável para alguém que não esteve na sala de ensaios. Escolher um ângulo implica abdicar de outros, e é aí que a maioria das campanhas hesita: tenta dizer tudo e acaba por não dizer nada com força suficiente.

Quando a narrativa está decidida, tudo o resto fica mais barato. O cartaz sabe o que tem de mostrar, o vídeo sabe onde cortar, o anúncio sabe qual é a primeira linha e a bilheteira sabe o que responder ao telefone.

Timing e preço fazem parte da mensagem

Timing e preço não são variáveis administrativas: comunicam. Abrir vendas cedo diz uma coisa; abrir tarde diz outra. Uma estrutura de preços legível transmite confiança; uma estrutura confusa transmite risco. O público lê estes sinais mesmo quando ninguém os escreveu.

Por isso considero que o calendário de vendas faz parte da criatividade. A pergunta não é apenas o que dizemos, mas em que momento o dizemos e a quem.

O que isto muda no trabalho

Na prática, significa começar cada projeto por uma conversa desconfortável: se este espetáculo não existisse, o que faltaria a alguém? Se a resposta for vaga, nenhuma campanha a corrige.

Quando a resposta é clara, o cartaz deixa de ser o início e passa a ser aquilo que sempre deveria ter sido: a primeira materialização de uma ideia que já estava de pé.